Do que realmente gostava o Julinho era de brincar no jardim dos fundos
de sua casa, e era isso o que ele estava fazendo naquela ensolarada manhã
repleta de passarinhos, com o inconfundível aroma de jasmins inundando o
bucólico cenário e as infaltáveis borboletas balançando-se nos galhos,
quando ao deixar vagar o olhar sem rumo definido flagrou um enorme cacto
do jardim do vizinho no exato momento em que pulava sobre a cerca de arame
que separava os terrenos e em menos de um abrir e fechar de olhos
abraçava-se a um dos trevos que viviam no seu jardim e começavam a beijar-se
na boca.
Sem perder tempo foi até o formiguero que
funcionava na outra ponta do jardim para saber se os chefes das formigas -
seus amigos Quinta Sinfonia e General da Banda - tinham visto o ocorrido,
mas para seu pesar um cartaz avisava que o formigueiro estava fechado por causa das férias e que
todas elas tinham viajado num charter da FormigAir até o Parque Municipal,
ficando assim com a grande honra de ter sido a única testemunha ocular da
história.
Julinho saiu correndo para contar a novidade à
sua mãe, mas ela para variar não acreditou, dizendo o mesmo de sempre - que
deixasse de sonhar acordado e outras coisas pelo estilo. Esperou
impaciente a volta do pai do trabalho - quem como de hábito não chegou
sozinho porque a escuridão da noite sempre o acompanhava - e contou-lhe
o acontecido, mas o pai, igualzinho que a mãe, lhe disse que deixasse de
ler tantas revistas infantis e livros de Júlio Verne e o Tesouro da Juventude,
porque em caso contrário terminaria muito mal; ou completamente maluco, ou
muito pior ainda, poeta ou escritor.
O melhor de toda essa confusão é que Julinho não
precisou esperar muito para que a sua grande vingança acontecesse, o que
de fato ocorreu numa outra manhã de um outro dia de um outro mês, ainda que
no mesmo jardim e com os mesmos passarinhos como testemunhas silenciosas,
todos deliciosamente embriagados pelo inconfundível perfume dos jasmins e
pela beleza sobrenatural das borboletas - que enquanto dançavam felizes de
galho em galho, olhavam de soslaio o panorama - quando no mesmo lugar em
que antes acontecera o estranho noivado floresceu a verdade em toda a sua
plenitude, porque senhoras e senhores, o trevo tinha dado à luz gêmeos, o
que significava que tudo aquilo que Julinho tinha afirmado que vira era a mais
absoluta verdade e não o produto da fantasia de uma criança candidata ao
Pinel, ou pior ainda, a ser poeta ou escritor, como seus pais suspeitavam.
Sim. No gramado do jardim, bem encostada à cerca que separava os dois
terrenos e colada à mamãe-trevo que estava iniciando-se na arte de trocar fraldas,
encontrava-se a prova definitiva que o absolvia para sempre: um fofíssimo
trevo cheio de espinhos e um pequeno e maravilhoso cacto de quatro
folhas.
(Por essas e outras, sempre convém perguntar: o que é realmente a
verdade, ein?... Vamos lá... que cada um conte a sua. O último paga a
conta).