O dedo na chaga

© Bruno Kampel, Suécia

Os profetas da globalização desenfundam seus hipnotizantes discursos nutridos com pútridos aforismos que disfarçam sua verdadeira e cruel sintaxe dodecafônica, enquanto governos esdrúxulos alugam o seu silêncio cúmplice e fornecem as ferramentas que desparafusam os andaimes do tambaleante edifício social, ao passo que o eco da injustiça hereditária explode  em metáforas  antagônicas ao despertar da insensatez tecnológica,  a qual, galopando pelos índices bursáteis, desenha  no rosto dos que tudo podem  um ríctus de desprezo ilimitado e maldade intransigente.
Noutra esquina do pântano social, a abundância, agarrada com unhas e dentes  às leis irracionais  que a favorecem, ri-se às gargalhadas dos pobres e humildes escravos, que anônimos como a desgraça alheia e encolhidos como o estómago vazio, suam de frio enquanto rezam seus desvalorizados pleonasmos de esperança.
Ante a macro-ignomínia que nos avassala; frente à globalização da insolidaridade que nos acua; diante da cumplicidade dos que tendo recebido o mandato de defender-nos fazem exatamente o contrário, não valem vómitos de repulsa nem gritos de raiva nem coartadas salvadoras ou consignas talhadas em pedras filosofais, mas  afiados gestos eruditos reptando aos fatos desprezíveis que avançam pisando a bainha da nossa finita paciência.
A História entretanto, entrincheirada à beira do tempo que passa, escreve, nas entrelinhas dos fatos que nos atropelam, a receita que ensina a reciclar velhas ilusões para que novamente inundem de respostas  o renascer do bom senso, conclamando-nos a trabalhar para que de uma vez por todas volte a estar na moda  pensar e agir como os animais que fomos, e não como as máquinas  que somos.


Retornar à página principal