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Os profetas da globalização desenfundam
seus hipnotizantes discursos nutridos com pútridos aforismos que disfarçam sua
verdadeira e cruel sintaxe dodecafônica, enquanto governos esdrúxulos alugam o
seu silêncio cúmplice e fornecem as ferramentas que desparafusam os andaimes do
tambaleante edifício social, ao passo que o eco da injustiça hereditária
explode em metáforas antagônicas ao despertar da insensatez tecnológica, a
qual, galopando pelos índices bursáteis, desenha no rosto dos que tudo podem
um ríctus de desprezo ilimitado e maldade intransigente. Noutra esquina
do pântano social, a abundância, agarrada com unhas e dentes às leis
irracionais que a favorecem, ri-se às gargalhadas dos pobres e humildes
escravos, que anônimos como a desgraça alheia e encolhidos como o estómago
vazio, suam de frio enquanto rezam seus desvalorizados pleonasmos de esperança.
Ante a macro-ignomínia que nos avassala; frente à globalização da
insolidaridade que nos acua; diante da cumplicidade dos que tendo recebido o
mandato de defender-nos fazem exatamente o contrário, não valem vómitos de
repulsa nem gritos de raiva nem coartadas salvadoras ou consignas talhadas em
pedras filosofais, mas afiados gestos eruditos reptando aos fatos desprezíveis
que avançam pisando a bainha da nossa finita paciência. A História
entretanto, entrincheirada à beira do tempo que passa, escreve, nas entrelinhas
dos fatos que nos atropelam, a receita que ensina a reciclar velhas ilusões para
que novamente inundem de respostas o renascer do bom senso, conclamando-nos a
trabalhar para que de uma vez por todas volte a estar na moda pensar e agir
como os animais que fomos, e não como as máquinas que somos. |