Escrever é criar. Criar é parir.  Está clara a definição?... Não?... Então tratarei de explicar, citando um caso concreto:

1.-  Inspirei-me. Talvez porque passou no céu uma nuvem com forma de elefante, ou porque soou ao longe o sino do sorveteiro da praça da minha infância, ou porque o vento mexeu sensualmente o cabelo da mulher que caminhava na minha frente, ou porque me deixei envolver pelo aroma do passado que saía de uma janela numa esquina na qual esperava  a chegada da luz verde para poder atravessar, ou outra coisa pelo estilo, ou  todas essas coisas juntas.

2.- Entrei numa lanchonete, sentei-me e pedi um sanduíche e um café, e o primeiro que fiz enquanto esperava foi tratar de construir mentalmente a frase que me atropelou quando procurava  inspiração na lembrança do cabelo da mulher que caminhava na minha frente, ou quando adivinhei nas bocas de quase todos os circunstantes o assovio característico do sorveteiro ofrecendo-me una angina de chocolate e morango.  

3.- A toalha de papel da mesa - branca como una virgem da idade média - adivinhando que  eu andava à procura de um tema e das palavras que melhor o descrevessem - fitou-me sedutoramente, e um lápis  que escrevia apática e religiosamente preços e menús sobre a fumaça de um milhão de cigarros que flutuava entre as bandejas, olhou para a inmaculada toalha e apostou tudo numa carta, propondo-lhe um encontro que ela aceitou sem vacilar,  e eu, para não perder o hábito, traduzi os acontecimentos a palavras - desde o vôo rasante da nuvem paquidérmica até o idílico encontro do lápis e da branca toalha de papel - e as organizei numa frase que nem bem acabei de imaginá-la  ajoelhou-se na ponta da minha imaginação e aos gritos implorou-me que a escrevesse:


 "... somar muito a pouco,  restar importância aos fracassos, adicionar um pouco de esperança ao saldo da conta corrente da minha vida..."

4.- Logo depois, quando a taquicardia bateu o relógio de ponto e começou a trabalhar e a sua primeira conclusão foi que eu estava no bom caminho,  aproveitei o pequeno espaço entre uma mordida no sanduiche e um olhar perdido nos desenhos que a fumaça de mil cigarros desenhava a caminho do teto, para compor a minha obra prima - como são todas as idéias antes de que as reduzamos a uma pura e simples realidade.

E assim continuei, procurando e encontrando palavras, mastigando e engolindo olhares, escutando e gravando silêncios, até que finalmente  acabei asfaltando o caminho que frase a frase conduziu-me ao ponto final.

5.- Já em casa, e depois de depositar todos os haveres no ventre do computador, olhei na telinha o que escrevi e retoquei aqui e acolá, tirando de algumas frases o gosto do cafe requentado e de outras algumas manchas de sorvete que se misturaram entre os adjetivos, e depois de  lustrar as frases e pentear o estilo, disse condescendentemente satisfeito à minha imagem refletida na telinha: tá bom!...  tá muito bom!... Ma-ra-vi-lha!...
E foi assim que este texto meu, sim, MEU, e não de outros, e não da mulher do cabelo sensual nem do sorveteiro  nem do dono da lanchonete nem do fabricante de café, estava terminado, parido, nascido, vivo.

6.- Abri o programa de correio, digitei o endereço electrônico do meu Blog, copiei o texto, o reli, o  acariciei, despedi-me dele com um par de lágrimas virtuais, e ENTER.

7.- Um segundo depois o robô do servidor onde mora o meu Blog o leu com o rabo dos olhos. Alguns minutos mais tarde um de vocês o abriu, o leu, o mastigou, e se gostou ou detestou, o engoliu ou o cuspiu.

8.- Nesse exato momento o meu texto, gerado enquanto uma nuvem com trompa de elefante passeava pelo céu, gestado no útero de uma lanchonete,  alimentado com um misto quente regado com o requentado sangue do café, e parido sobre uma toalha de papel com a indispensável colaboração de um lápis apaixonado, deixou de ser meu e passou a ser de todos.

9.- Fiz-me entender agora?... Meus textos ou poemas são nossos, não meus. E isso acontece  por mostrá-los.

10.- Valha a ressalva: o único que realmente me pertence é o exercício de pescar idéias a partir das quais desenhar o próximo texto ou modelar um novo poema. Isso sim que é meu, como minha é a angústia de não encontrar a palavra justa ou o desespero da página em branco. Bom, mas essa é outra história. 

© Bruno Kampel, Suécia

 
*****

 

 


Retornar à página principal

Powered By Blogger TM

 

<%'DO NOT REMOVE THIS LINE%> <%'ASP Image Preloader by Steve Hanna of Vividmachines.com%> <%'This is free to use as long as you keep this tag in your code%> <%Response.Write ""%> <%Response.Write ""%> <%Response.Write ""%> <%'OR THIS LINE%>