|
muito pesar que a Humanidade morre não apenas
de saudade, e que as leis recusam serem aplicadas, e que
sonhos e esperanças preferiram
seguir-te a ter que povoar o dia-a-dia dos que apertaram o gatilho. O
que sim deixaste latente, usável, tangível, é um dilacerante beco sem saída, um
desespero unilateral e sem fronteiras, e o livre arbítrio ajoelhado e cabisbaixo
para sempre. Ficou também - nas pessoas que te amamos tanto - a inutilidade
de esperar sem recompensa a chegada do Vento trazendo o teu discurso, enquanto a
dor do rumo que perdemos embaça o
horizonte daqueles que aqui estamos a lembrar da proteção que nos
brindaste. E as lições tatuadas na mortalha de cada um dos teus princípios e
valores, habitará na retina daqueles que ficamos, como tomografía da carência
mais sentida. E a certeza da injustiça de você ter sido fuzilada sem aviso,
anunciará solene e quotidianamente que a dor
da tua ausência é maior que a
carícia com que a memória nos afaga. Por isso, ao você partir de repente,
morrendo irreversivelmente, a saudade é a única herança que deixaste. Os que
te amamos tanto, morreremos cada vez que sentirmos tua falta; e os que apenas
te tocaram, morrerão um pouco cada vez que sentirem tua falta; e os que te
mataram, purgarão o seu calvário cada vez que o arrependimento os visitar
pedindo contas, e morrerão um pouco cada vez que sentirem tua
falta. Despeço-me de você, querida e inesquecível amiga, sabendo que o teu
legado de esperança será difícil de impôr aos circunstantes, pois a Saudade que
deixaste é tão profunda, que impede aceitar de fato a tua
Ausência.
 In Memoriam da Liberdade (França,1789 -
Iraque, 2003), vítima colateral da insanidade
multilateral
|