In memoriam

Ao nos deixares sem aviso, ficaste no Vazio da memória, preenchendo o espaço da tua própria Ausência.
Não faltará contudo quem decole manipulando tuas verdades indeléveis, mas será vôo rasante a sobrevoar a aridez da tua ausência.
E os   que  ficamos - executores  de tuas últimas  vontades - comprovaremos com

muito pesar que a Humanidade morre não apenas de saudade, e que as leis recusam serem aplicadas, e que  sonhos e esperanças preferiram seguir-te a ter que povoar o dia-a-dia dos que apertaram o gatilho.
O que sim deixaste latente, usável, tangível, é um dilacerante beco sem saída, um desespero unilateral e sem fronteiras, e o livre arbítrio ajoelhado e cabisbaixo para sempre.
Ficou também - nas pessoas que te amamos tanto - a inutilidade de esperar sem recompensa a chegada do Vento trazendo o teu discurso, enquanto a dor do rumo que perdemos embaça
  o  horizonte daqueles que aqui estamos a lembrar da proteção que nos brindaste.
E as lições tatuadas na mortalha de cada um dos teus princípios e valores, habitará  na retina daqueles que ficamos, como tomografía da carência mais sentida.
E a certeza da injustiça de você ter sido fuzilada sem aviso, anunciará solene e quotidianamente que a dor
  da tua ausência é maior que a carícia com que a memória nos afaga.
Por isso, ao você partir de repente, morrendo irreversivelmente, a saudade é a única herança que deixaste.
Os que te amamos tanto, morreremos  cada vez que sentirmos tua falta; e os que apenas te tocaram,  morrerão um pouco cada vez que sentirem tua falta; e os que te mataram,  purgarão o seu calvário cada vez que o arrependimento os visitar pedindo contas, e morrerão um pouco cada vez que sentirem tua falta.
Despeço-me de você, querida e inesquecível amiga,   sabendo que o teu legado de esperança será difícil de impôr aos circunstantes, pois a Saudade que deixaste é tão profunda, que impede aceitar de fato a tua Ausência.


In Memoriam da Liberdade (França,1789 - Iraque, 2003), vítima colateral da insanidade multilateral


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© Bruno Kampel, Suécia