© Bruno Kampel, Suecia

Faz um par de dias - enquanto  um delicioso brioche ajudava-me a quebrar o jejum - cheguei à conclusão de que o silêncio é o principal patrocinador da Poesia, já que é o cenário sobre o qual a imaginação ensaia seus projetos, e também a alma mater do pensamento,  e o discurso melódico das idéias, e o abecedário multilíngüe onde se gestam as metáforas e germinam as hipóteses, e o acolhedor hábitat no qual se cristaliza a metamorfose que transforma olhares em palavras, emoção em estrofes, verbo em versos.
Teria gostado muito de poder dedicar mais tempo a esses devaneios matinais, mas como sempre o telefone tilintou e o meu agente de investimentos, em apenas quatro palavras - compra/venda/lucro/prejuizo - conseguiu que eu fizesse o que não queria: abandonar o arco-íris e  retornar à realidade em preto-e-branco.
Respondi-lhe automaticamente, pedindo que compre e que venda, sabendo muito bem que como de costume perderia aqui e ganharia acolá, riria um pouco e choraria mais, já que nunca me foi fácil compaginar as taxas de juros com o perfil do desejo, nem o índice do desemprego com palavras que afagam, ou o ponto crítico do qual nos informa a Física com o ponto G que nos ensina a sexualidade, nem o suar copiosamente por causa da emoção com o suar a litros por motivo da inflação.
Enfim... Não tive mais remédio do que continuar aceitando as regras do jogo. C'est la vie, comentei com a chave enquanto fechava a porta, e lá fui eu trabalhar.


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