| Faz um par de dias - enquanto
um delicioso brioche ajudava-me a quebrar
o jejum - cheguei à conclusão
de que o silêncio é o principal patrocinador da Poesia, já que é o cenário sobre o qual a imaginação ensaia seus projetos, e também a
alma mater do pensamento, e o discurso melódico das
idéias, e o
abecedário multilíngüe onde se gestam as metáforas e germinam as hipóteses, e
o acolhedor hábitat no qual se cristaliza a metamorfose que transforma
olhares em palavras, emoção em estrofes, verbo em versos. Teria gostado muito de
poder dedicar mais tempo a esses devaneios matinais, mas como sempre o telefone
tilintou e o
meu agente de investimentos, em apenas quatro palavras - compra/venda/lucro/prejuizo -
conseguiu que eu fizesse o que não queria: abandonar o arco-íris e retornar
à realidade
em preto-e-branco. Respondi-lhe automaticamente, pedindo que compre e que venda, sabendo muito bem que
como de costume perderia aqui e ganharia acolá, riria um pouco e
choraria mais, já que nunca me foi fácil compaginar as taxas de juros com o
perfil do desejo, nem o índice do desemprego com palavras que afagam, ou o
ponto crítico do qual nos informa a Física com o ponto G que nos ensina
a sexualidade, nem o suar copiosamente por causa da emoção com o suar a
litros por motivo da inflação. Enfim... Não tive mais remédio do que
continuar aceitando as regras do jogo. C'est la vie, comentei com a chave enquanto
fechava a porta, e lá fui eu trabalhar. |